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Da gaveta de coisas que valeram a pena – Carta para Arthur

Então, a gente brigou. Na verdade, eu briguei com você. Na verdade verdadeira, nem tivemos uma briga, eu apenas falei um monte de bobagens e fechei a porta. E sem te dar o direito de resposta, coloquei uma pedra sobre tudo que a gente era junto.

A gente era muita coisa, coisa pra caralho! Era muita cumplicidade, era a felicidade de eu poder ter você entre os melhores amigos, era o carinho todo dia de manhã com uma mensagem boa, a troca de músicas incríveis, sua paciência quando eu começava a dissecar letras, nossa alegria quando aproximava o encontro, as conversas sem fim, o amor desmedido…

Eu andava tão besta… A gente deixa a vida fazer umas coisas muito loucas com a gente e eu demorei tanto pra ver o tamanho da burrada. E que burrada, Cintcha! O tempo passa. Cheguei a acostumar com tua ausência. A gente se acostuma com tudo, por pior que seja. Acostumar, né? Esquecer, não. E de repente a memória, mais do que memória, vira nostalgia, quase melancolia, inteira saudade.

E eu fui lá bater na porta que eu mesma tinha trancado e ver se a gente ainda morava lá, mas não se bate a uma porta que a gente mesmo fechou e jogou a chave fora, de mãos abanando… Juntei coragem, muita verdade [algumas que doem, inclusive], um pedido honesto de desculpas, uns arrependimentos, uma vontade descomunal de fazer dar certo, e um medo desgraçado de você me deixar esperando até que eu desistisse.

Você não me deixou esperando, mas também acho que eu não desistiria. Antes de abrir a porta, a gente discutiu lá fora. Desconfiado, você me empurrou uma caixa enorme e pesada de outras tantas verdades e a gente se disse coisas muito duras, a gente teve que se rasgar bastante e se desconstruir outro tanto pra poder ser de novo. Ninguém disse que seria fácil, e se fosse, talvez, não teria sido tão honesto. Eu chorei um bocado, doeu pra caralho, mas pedir perdão não é pedir o esquecimento da mágoa, é deixar que o outro coloque a mão onde dói e diga porque dói e, com sorte [e que sorte eu tive!], diga que dá pra curar. Com mais sorte ainda, juntos.

E, assim, você abriu a porta. Devagar, uma frestinha. Foi meio estranho de começo, e eu até pedi licença pra entrar. Tinha muita coisa ali que não me era familiar porque foram muitas as novidades que eu perdi – um ano é muito tempo. Mas também tinha a curiosidade de conhecer esse tudo tão novo, uma urgência delicada de recuperar o vínculo, respeitando os vazios e a falta que nos fizemos.

Foi bonito, cara. Foi bem bonito e muito foda. Sempre vai ser muito foda ter você na vida.

Eu moro nos amores que vivo, e te digo, de coração escancarado, que é muito bom estar em casa de novo.

A vida é muito curta para não ser feminista

A vida é muito curta para que censurem suas roupas, seus desejos e seu tesão. A vida é muito curta para deixar que ele fale mais alto, fale por último, seja dono da sua verdade. A vida é muito curta para sentar de pernas cruzadas e nunca na calçada. A vida é muito curta pra passar metade dela se equilibrando num salto quando se prefere andar descalça. A vida é muito curta para beber menos, sair pouco, espera-lo em casa quando se quer ganhar o mundo.

A vida é muito curta para conter abraços, gestos largos, gargalhadas altas. A vida é muito curta para se calar, se fechar, viver à sombra, se anular. A vida é muito curta para zelar por uma reputação que nunca nem se quis.

A vida é por demais curta para se guardar quando se tem vontade de voar. A vida é muito curta para abrir mão de suas escolhas, de sua história, de seus planos e, sobretudo, de seus sonhos. A vida é muito curta para viver dizendo “sim, senhor”.

A vida é muito curta para que roubem seu palanque, seus direitos, sua liberdade e se apropriem de seu discurso. A vida é muito curta para que seu corpo não seja seu, sua mente não seja sua, a vida é muito curta para regras que nunca se quis seguir. A vida é muita curta para se fazer caber em tantos quadrados, expectativas. A vida é muito curta para sentir tanto medo. A vida é muito curta para não fugir, não sangrar, não escancarar.

A vida é muito curta, caralho, como ela é curta, para que sua voz não seja ouvida, para que a impeçam de gritar, para que a impeçam de rasgar sua dor. A vida é muito curta pra se ser coadjuvante da própria trajetória.

A vida é muito curta pra não lutar. A vida também é muita curta para mudar o mundo, mas nada nos impede a tentativa, muito menos a esperança. Nada pode ser mais recompensador do que fazer a diferença. A vida é muito curta para velarmos nossos corpos ainda respirando. Eles respiram. Por nós, por elas, por todas, a vida é muito curta pra não ser feminista.

A frequência das conversas diminuiu consideravelmente até que deixassem de ser compromisso [seríssimo e honradíssimo] das horas vagas [eram muitas as horas vagas]. Seu nome deixou de aparecer no topo de listas de chats em redes sociais, e procurando por você no meu email, nenhum registro nos últimos dois meses. Eu sabia, mas pareceu novidade quando constatei. Zero a zero.

Achei no meio da agenda um rascunho do cartão de Natal que te entreguei no aeroporto, não lembro se ele continha o texto da versão final ou se era apenas uma ideia, o fato é que, se foram aquelas palavras que você recebeu, eu menti. Em minha defesa, eu também acreditei em cada uma delas. Não foi blefe. Garanto.

Quando eu tive certeza que a gente tinha encontrado um meio de estar junto muito nosso e muito especial, quebramos. O que diz muito sobre minha intuição bem bosta pra essas coisas do amor e que, infelizmente, não se recompensa em mesas de carteado e apostas. Nem no jogo, nem no amor, sintonia foi uma sorte que, se bateu na minha porta, saiu correndo.

No fim, fracassamos no timing, não na intensidad, ainda que você tenha sido muito esperto no corte seco da tacada final. Sobrou foi nada, saudade, acho, mas sem desejo. [Saudade não necessariamente nos fala sobre voltar a certo ponto, mas sobre reconhecermos que aquele ponto nos fazia felizes lá, hoje não mais.]. Às vezes eu ainda quero saber como você tá. Carinho. Mas você deixou as portas bem trancadas. E há muito eu não tenho as chaves. Justo.

Não queria soar formal, mas devo um obrigada muito sincero a você por ter sido tão certeiro e por ter me ensinado tanto em tão pouco tempo. A vida ficou mais leve depois que você passou por aqui, e eu aprendi a ser mais leve mesmo depois que você foi embora. Inegável que marcamos muitos pontos. E em tempos de tanto jogo sujo, fico feliz por reconhecer que, apesar de tudo, saímos ganhando. Nunca adversários, muito mais do que parceiros. Game over.

quer se encaixar

depois
quer mudar a si
ao mundo

não cabe em si, transborda

é preciso caber em si
no mundo

quanto mais cabe
menos se suporta

 

Anticlímax

Desisti de trabalhar na mesa e fui pra sala. Liguei a TV, e enquanto resolvia uma treta e outra, passava uma comédia romântica. De início, era do tipo que eu odeio… Mas não posso negar que já fui muito apegada àquelas histórias, bem, eu já fui noiva, eu já acreditei em amor eterno, já acreditei em monogamia e já achei que o feliz pra sempre era pra sempre com a mesma pessoa e que meu feliz pra sempre só seria feliz pra sempre se fosse com alguém. E o filme era sobre isso, uma daquelas histórias, uma mocinha muito simpática e bonita pastava na mão do moço egoísta, machista e burro. Ela batalhava pela aceitação dele enquanto sonhava que ele recolheria as meias e a ajudaria a lavar os pratos, reconheceria, enfim, o papel dele no relacionamento [ainda que ela estivesse exigindo muito menos do que deveria] para que eles pudessem atingir seu final feliz.

Coma alguma indiferença até que acompanhei o que se desenrolava naquele roteiro que me parecia tão ordinário. E era. O final? Bem… Diferente do que eu imaginava, eles não se acertaram. A mocinha entendeu que depois da separação conturbada, algo que os mantinha unidos se perdeu e o felizes para sempre deles não era um com o outro. Não vou indicar o filme porque apesar do final ter me feito pensar sobre muitas coisas, continua sendo uma comédia romântica não romântica ainda muito da besta, e longe do que considero um filme bacana sobre superação, sobre emancipação, sobre amor próprio e sobre o que entendo hoje como um relacionamento perfeito.

Quando olho ao meu redor e vejo o esforço das pessoas em se prenderem a alguém como se disso dependesse seu sucesso na vida, eu sinto o quanto somos levianos nisso de deixar-se amar e amar. Cada vez que me dizem que já está na hora de eu arrumar um namorado sério eu me arrepio dos pés até a cabeça, não porque estou traumatizada com algumas coisas que deram errado, não mesmo, essas coisas deram errado no final e nem por um segundo me fizeram deixar de acreditar no amor, me ensinaram muito até, é só que eu acho que esse modelo não me serve… E eu espero que nunca sirva, se servir novamente um dia, será um sinal claro de como eu simplesmente me deixei levar pelo que as pessoas esperam de mim.

Eu realmente acredito que podemos amar uma pessoa e querer estar só com ela e que isso, de repente, veja só, pode realmente durar, mas eu acredito ainda mais num relacionamento que permita ao outro a liberdade de ser quem ele é, de exercer sua sexualidade e liberdade e afetividade, que acordos e concessões devem ser feitos e que respeito e lealdade são mais importantes do que fidelidade enquanto essa fidelidade que pintam por aí: prender seus desejos e vida numa corrente e essa corrente a uma outra corrente para que você possa arrastar corrente com alguém até que a morte os separe.

Comédias românticas nos dizem o tempo todo que devemos engolir o que for preciso porque precisamos passar por isso para merecermos um happy end. Que precisamos nos humilhar, que precisamos engolir as grosserias do outro, que precisamos passar por um longo caminho de infelicidade, como se fosse provação, para que alcancemos o ápice do que nossa vida amorosa possa nos dar. E que isso tudo, de preferencia, tem que acontecer antes do trinta.

Se eu pudesse dar um conselho às meninas de 13, 14 anos seria esse: não assistam às comédias românticas. Não deixem que digam a vocês que vocês precisam passar pelo inferno para merecer o céu e que o céu só é céu se você tem alguém, formou uma família. Não deixem que a Jennifer Aniston convença vocês de que o melhor sonho que uma mulher pode ter é o do casamento feliz. Somos mais do que um casamento bem ou mal sucedido. Mal nenhum em desejar um casamento bem sucedido, mas não é justo que vivamos para que o nosso melhor seja ser ~uma boa esposa~, uma esposa de comédia romântica que depois de acertar as arestas do seu relacionamento só pode sonhar em ser mãe.

É muito pouco, mas é o que exigem de nós o tempo todo em almoços de família, ou quando te olham com alguma indiferença porque você realmente parece estar vivendo sua vida sem se preocupar com todas essas ~obrigações~. Aliás, eu não recebi esse comunicado acho. Esse comunicado que me obrigada a estar dentro de um padrão que aprisiona. Eu quero estar cada vez mais livre e mais dona das minhas escolhas. Eu quero poder escolher de repente o que parece tradicional, mas quero poder fugir totalmente disso e não me sentir uma pessoa horrível quando digo que casar já não faz mais parte dos meus planos.

Aliás, que coisa estranha. Esperam que você sonhe com casamento antes mesmo que você conheça alguém com quem sinta vontade de casar. Sei lá, casamento pode ser uma consequência adorável, mas não deveria ser uma meta. Não deveria ser culturalmente imposto como meta. Eu já sonhei com o casamento antes mesmo de me dar conta que aquele com quem eu casaria não tinha nada a ver comigo, mas eu sonhava com casamento e só seria feliz se fosse casada, vejam vocês, aos 23 anos. Aos 26, eu gosto bem mais de mim, solteira, exercendo minha sexualidade como ela me cai bem e simplesmente não me preocupando que as coisas se tornem “mais sérias”.

Eu estou sempre apaixonada, eu estou sempre amando, é meu jeitão. Eu estou amando agora, mas do nosso jeito encontramos um meio de preservar o que nos é mais caro: a liberdade. Eu não preciso me prender para viver plenamente o meu amor, e o que mais me faz feliz nessa liberdade é saber que se está bom para os dois, continuaremos ali, mas a partir do momento que isso ferir mais do que fizer feliz, eu não tenho uma conta pra acertar com o mundo, apenas conversaremos, nos entenderemos e botaremos um fim, porque eu nunca mais fechei a porta pra vida.

Minha liberdade ocupa agora um espaço que antes era do ciúmes, da obsessão, da desconfiança e da insegurança. Minha liberdade deu mais espaço pra mim. E esse é um espaço que eu quero ocupar e estou me acostumando a ocupar por inteiro. Se for pra ser romântico e engraçado, problema nenhum, mas que seja nosso, que seja por mim e por quem estiver comigo. Que seja leve e respeitoso e que não necessariamente seja explicável ou compreensível pra quem está de fora. Essa, mundo, eu vou ficar te devendo. O papel de mocinha não é meu mais.

sobre jaquetas jeans com caráter e amor de bicho solto – ou o que eu aprendi em 2013

deixar-se livre é dessas coisas mais bonitas que aprendi com as porradas que o coração levou. deixar-se livre significa muitas coisas, entre elas, que estar sozinha é bom, que estar com alguém também é bom, que esse “estar” pode ser de muitos jeitos e que “bom” é aquilo que te cai bem naquele momento.

não tem muito isso de “eu era assim, agora sou assim”, parei de ficar tentando definir demais as coisas numa tentativa de explicar pra mim mesma e apreender tudo o que acontece comigo. não que não seja importante refletir sobre sentimentos e situações, mas parei de tentar encaixar tudo em quadradinhos que fizessem sentido, resolvi deixar solto. e me vi assim, muito bicho solto também, nesse meio de caminho.

e bicho solto não significa, talvez, não se prender. significa deixar que os encontros fluam com mais liberdade, significa permitir a esses encontros a possibilidade de serem o que vieram pra ser, ainda que seja pouco, ainda que seja muito, ainda que seja diferente de tudo que eu já vivi, mas gosto de pensar que são o bastante.

libertador.

não tento convencer a ninguém de que esse é o melhor jeito de se levar, mas me pareceu tão bom por agora que, nossa, deu vontade de dividir. fazia tempo que eu não dividia isso de sentir, porque eu sempre deixava pra dividir o que era dor, o que era aperto, o que era sufocante e exaustivo, eu escrevia para transbordar. escrever com essa paz é muito novidade pra essas bandas de cá.

gosto de gostar assim e de estar assim. fico bem. demorei a descobrir que nem tudo precisa ser desesperado, ainda que não signifique que não será intenso.

nisso de ser bicho solto eu andei arrastando minha jaqueta jeans muito velha e muito cheia de caráter por mais lugares, conheci mais pessoas e tenho vivido meu tempo numa conta mais frouxa. e o espelho não mente: tá tudo bem agora.

não sei se estou bicho solto ou se sou bicho solto, mas gosto de pensar que bicho solto é como um passarinho que você não prendeu na gaiola, mas que sempre volta pra cantar na sua janela. porque, eu sei, eu sempre volto, mas gosto de pensar que agora eu não “preciso”. eu volto porque a vida me faz voltar, e nessas voltas, os encontros fluem, se desenrolam, mas o sentimento não é jaula mais. deixar livre – a mim e ao outro – é minha única resolução de ano novo.

eu achei uma foto nossa hoje. velha. a gente tinha não mais do que quinze dias de namoro. parece que de lá pra cá se passaram uns dez anos, mas foi só um.  a gente tá com um sorriso bom, leve, não estávamos olhando pra câmera, decerto, era pra algum dos nossos tantos amigos em comum que a gente olhava, a gente ainda olhava junto, na mesma direção. ali ainda não tinha briga, não tinha desentendimento, não tinha arrependimento, nem certeza de porra nenhuma, ali que era bom. as mãos dadas [mas, sabemos, mesmo nos piores momentos, sempre estivemos com as mãos entrelaçadas, era uma coisa muito nossa. porque era o tempo todo], os ombros encostando, quase dividindo o mesmo espaço… bonito. bonita a cena, bonito você. você tava muito bonito com aquela camiseta rosa. ainda outro dia eu te guardava com um certo receio dentro de mim, mas hoje, olhando aquela foto, eu entendi porque tinha dado pra te guardar com amor. você pode negar o quanto quiser, mas tivemos nossos bons momentos. é nessa caixinha de bons momentos, com essas fotos bonitas, com esses dias felizes, com essas recordações que deixam o coração alegre por saber que viveu tudo isso, que eu vou te guardar. você que me guarde onde quiser. que jogue fora, se achar melhor. eu não. eu te guardo com a melhor lembrança do melhor amor que te dei. acabou, mas algo em mim diz que valeu a pena. :)

amaciante

tem dias em que eu me sinto triste

nesses dias eu coloco a roupa pra lavar no ciclo mais longo

nível máximo de água
programa pesado
performance turbo
seleciono dois enxágues
repito o centrifugar

só pra ter certeza de que alguma coisa nessa vida dura mais do que três horas

 

 

 

casa

“for so long I was out in the cold,
and I taught myself to believe every story I told.
it was fun hanging over the moon, heading into the sun,
but it’s been too long.
now I wanna come home.”

o que é a casa?
é onde a gente sabe que vai descansar os pés quando chega de viagem? é de onde saem as nossas malas, mas pra onde sempre voltam?
a casa é a da infância? é a temporária enquanto a gente ainda tá morando com uns amigos? é onde a gente vai descansar depois que os filhos estiverem criados?

minha mãe diz que a minha casa é a dela, mas eu fui embora. sei que minha casa não é mais lá.

meus amores me dão suas casas, mas é uma casa que dura o tempo do amor , é a casa do nosso amor, não a minha. sou eu quem vai embora quando o amor já não mora mais ali.

e, então, pensando sobre esses espaços ocasionais demais pra chamar de casa, uma amiga veio com a resposta: a casa é você.

[pausa dramática]

óbvio, cintcha.

e, de repente, não me sentir em casa, me fez pensar que isso é sobre mim, não sobre espaços. a casa sou eu, e ela precisa de reformas. chega de só empurrar os móveis para uma parede menos tediosa.

o espaço que eu preciso pra chamar de meu, não é físico. sou eu que preciso me chamar de minha. e ficar bem com isso.

the rain song

bonito da vida é isso
saber que em algum lugar da vila
num jardim coberto de primaveras
tem alguém te querendo bem
e sorrindo

a minha jaqueta de couro

nem era velha
mas tem todas as cores de bebida
todos os cheiros de cigarros
farelos de drogas nos bolsos
um botão despencando
um ziper que não fecha
um arranhão feito numa porta de ferro
uma rachadura na gola
uma saudade de você
é o teto de uma estranha
mandei lavar
espero que não volte

Cartas pra Binah

Já te disseram o quanto são lindas as suas mãos? Dedos longos, longos… Lindos… Lembro de você chegando com pulseiras que faziam barulho, parecia uma cigana… A saia comprida, a bolsa de franjas e um olhar de quem poderia ganhar o mundo a qualquer momento. Esse seu olhar é dessas coisas nas quais eu me demoro porque gosto de me perder, suas pupilas contam revoluções que ainda estão por vir, dá pra conhecer o universo nos seus olhos. O tempo todo. Tanta poesia, você exala poesia. O jeito de andar, uma preguiça gostosa quando acarinha meus cabelos. Gosto que você goste deles. Parece que meus cachos foram feitos na medida certa para que seus dedos morem ali. Por mim, seria seu endereço fixo. E eu moraria na suas mãos. Entregue.

Coloca Caetano pra gente adormecer, meu amor. E se não for pedir muito, cante, cante, porque quando você canta eu fico em paz.

aprendendo a ficar só
a não olhar para o relógio mendigando voltas
aprendendo a ficar comigo
e só comigo
sem me aborrecer com as olheiras
com as saudades
com as viagens que o corpo dá
pra não voltar pro mesmo tempo
aprendendo a desfazer as malas
e ficar
reconhecer meus lugares
e esquecer lá
lá era bonito
mas não me comporta mais
lá tinha amor
mas não tem mais
aqui é recomeço
aprendizado
paciência
um pouco de dor
e alguma esperança
de que lá volte a fazer sentido

descascou tomates
picou temperos
tinha mão boa para temperos
colocou na panela e deixou refogar
refogou
refogou
abriu um vinho
chorou
com as cebolas
acertou a mão no açúcar
acertou no sal
tomou mais vinho
terminado
jantou com a saudade

tanta coisa

deveria doer menos pressentir tua sombra naquela calçada. e deveria doer menos ter certeza de que você estava ali. deveria doer menos encontrar a porta trancada e não ter mais a chave. deveria doer menos cruzar as nossas ruas, os nossos amigos e os nosso bares. deveria não me arrancar um pedaço imaginar teu cheiro na minha roupa e minhas roupas pelo chão da sala. deveria não doer tanto imaginar que outro alguém pode estar na nossa cama. deveria não me dar vontade de gritar cada vez que eu te desejo com a força de quem ainda ama e não consegue lidar com o fim. deveria estar aí. aqui é tão mais frio. deveria ter dado certo. deveria não ter te conhecido.
deveria não desmoronar.
a gente.
eu.

quinze minutos

quanto tempo terá perdido com seus cigarros? não falo do tempo em que fuma e faz qualquer outra coisa, mas do tempo em que saiu para fumar. ou só permaneceu na singularidade de fumar. apenas fumar. distraindo-se, quem sabe, com alguma paisagem, alguma janela, alguma rachadura na parede. ou pensamento fixo – no trabalho que não sai, no fim de semana que não chega, no passado que não se esquece, no tempo que não passa, na saudade que não passa. ou na morte que não vem. quanto tempo terá perdido com seus cigarros? nunca muito tempo. mas muito mais tempo desde que o moço bonito foi embora.

Fernanda (ainda)

Será, Fernanda, que você ouve Neil Young? Talvez você tenha comentado. Que ama ou odeia. Em algum momento da vida a gente tem que se posicionar sobre Neil Young. Talvez eu não tenha prestado atenção, talvez não tenha sido comigo. Que ciúme. Que ciúme só de imaginar que você conversou sobre Neil Young com alguém. Ou com alguéns. Que a conversa tenha estado boa o suficiente pra chegar nesse ponto. Ou porque um garoto espertinho tenha sugerido esse assunto [depois de um longo silêncio, para ver se recuperava seus olhos que poderiam estar perdidos num guardanapo entre os dedos.]. Mas me diga, Fernanda, porque ainda há tempo, o que você acha de Neil Young? E se der vontade, comente também sobre Johnny Cash, por favor. Mais do que dizer se gosta, diga o porquê. Esmiúce seu gostar. Falo em gostar porque imagino que você goste. É mais legal pensar que você gosta. Porque dá vontade de te levar pra um bar e conversar sobre essas coisas. Eu quero saber pormenores. Quando conheceu, como conheceu, que música ouviu pela primeira vez. Você deve se lembrar. O toque de um vinil riscado na casa dos tios, uma rádio que lhe deixou curiosa, a descoberta solitária em uma loja de discos. Conta mais, Fernanda. Porque eu preciso saber. E ouvir.

Fernanda

Tão bonita a menina
Dos olhos mais bonitos que já vi
De cabelos igualmente bonitos
De sorriso qualquer coisa que eu nunca sei

Será que sabe a menina
Que pros olhos dela eu olho o dia inteiro
E que pro beijo dela eu guardo meus sonhos

Que bonita a menina!
Quantos sorrisos me rouba
E com que olhos me come
até deixar em mim o seu batom

Não-conversas com Adelaide

Será que você sabe
Adelaide
Que eu coleciono teus nus
Os teus e os de quem tu fotografa por aí
?
Será que você sabe
Adelaide
Que eu reviro tuas fotos
Buscando as palavras que nunca trocamos

Ai
Adelaide
Como dói essa saudade

Monólogo de insone [n˚ sei lá perdi as conta]

“É isso que você quer da vida?”  E eu sonhei com alguém me fazendo essa pergunta. Pela situação, me parecia uma espécie de psicólogo, analista. Nunca fui. Apenas usei as referências de cinema, de como as coisas se dispõem nesses consultórios, dos cenários que já produzi e concluí que era algo assim. Também, quem mais me faria essa pergunta? Assim… de uma maneira tão direta? Tão, tão… Tão obscena? Expondo a mim mesma essas coisas que a gente finge que não vê quando empurra com a barriga? Eu acordei quando ia responder. Não ouvi minha resposta. O que será que eu diria? Sobre o que exatamente seria aquela pergunta? Sobre meu trabalho? Sobre minhas escolhas? Sobre minha casa? Sobre essa liberdade que me impus durante tanto tempo pra esquecer que eu estava presa? Como seria oalívio que eu sentiria se tivesse respondido? A pergunta martelou o dia todo. É isso que você quer da vida? E eu olhei pra minha vida como quem vê o próprio carro em movimento só por esticar a cabeça pra fora. O carro tá meio desgovernado. Se eu fosse responder de um jeito debochado, eu diria: “é óbvio que não, eu queria ser rica, herdeira e cagar na cabeça dos meus desafetos”. Se fosse pra responder de uma maneira simples, diria que sim, é isso que quero. Tá tudo bem, sabe? Nada dando errado. Algumas coisas dando mais certo do que a gente imaginava =], tudo em paz. Mas na hora do almoço eu parei pra pensar e entre a garfada de alface e o gole de tubaína, veio o soco no estômago.  O mesmo soco de quando Pedro me perguntou quais são meu projetos. Bem, eu tenho sonhos, mas não tenho projetos. Foi isso que respondi. Foi isso que me martelou o dia todo. De novo. Sonhos. Muitos sonhos. Sonhos de tudo ao mesmo tempo agora, amanhã e depois. Sonhos gigantes mesmo. Mas continuam não sendo projetos, e eu me vi caminhando numa paralela a esses sonhos todos… Como quem os namora de longe, mas não pega o mesmo caminho. “Típico de gente romântica, intensa e nada prática”, sentenciou a amiga. “Ninguém nunca sabe”, disse o amigo confortando a mim e a ele mesmo. Mais um. E  o que a gente faz com isso? Que eu faço com isso? Isso, no caso, esses projetos, essa vida que eu vou levando, a vida que eu gostaria de levar, a vida que eu deveria levar. Não há mais o olhar incisivo do cara do sonho, eu não preciso responder essa pergunta a ninguém, mas a angústia da dúvida, continua. Eu não sei o que dizer sobre isso. Isso, esse isso enorme e incerto que, na verdade, sou eu. Um eu muito inconveniente.

Deixa amar


Abrindo mão do juízo pra deixar amar. Pra não ficar amargurando em agosto os novembros que nunca foram.

Deixa amar sem tantas regras, sem tantos porquês, sem ficar justificando como se o amor requeresse essas atas todas. Deixa amar soltinho, sem regular paixão, nem mais uma dança.

Deixa ficar pro café e pro almoço, se quiser. Deixa estar que está bom assim. E se deixando ficar, forem embora, é importante que se deixe ir. Porque deixar amar é isso também.

Deixa amar o meu amor bonito. Lindo que só. Dá até gosto. Deixa amar o calor dos infernos e no calor dos infernos. Deixa amar que é preciso que as coisas possam acontecer.

Deixa amar e deixa livre.
As gentes.
Os amores.
Os corações.
Os sonhos.

Deixa amar a multidão e deixe que ela se ame inteira.
E toda.
E nua.

Deixa amar. Por menos proibições, por menos pode isso ou aquilo, por menos discussões, por menos tanto cercear dessas vontades que a gente nem nunca quis controlar.

Deixa amar sem alinhamento justificado, deixa amar torto mesmo que se é amor, é de bem. Deixa reproduzir sem fonte, deixa citar o amor dos outros para convencer o meu de se amar pra mim. Tanto refrão e poesia pedindo pra ser amor por aí, você não há de negar.

Deixa amar as coisas que carregam sentimentos e os sentimentos que demandam cuidados. Deixa amar as ruas que me levam até lá, as canções que ensaiei pra ele no meu tom desajeitado. Deixa amar. Que não é de direito interferir assim nas minhas escolhas. Em teus muros eu vou pintar a minha fé.

Deixa amar quantos couberem e derem. Quantos quiserem. Quantos forem necessários para que essa ânsia de amor se cure e se acalme ou se aflore duma vez.

Deixa amar para que a gente veja amor por aí. Transpirando por janelas e portas e sorrisos e perdões. Deixa amar para que o amor entre. E se instale. Não é preciso mostrar o caminho, se deixa, ele bem sabe onde ficar.

Coração coisado

“Bate uma a outra faia”. Não é doença, não é saudade, não sei, mas tá coisado.

Talvez um pouco de tudo e tão junto que deixe a gente assim, coisado por inteiro. Vendo graça onde não tem, suspirando entre sentir o peito apertar de tão pequeno para no outro segundo se esticar querendo abrigar o mundo.

Coisado é isso que a gente não sabe ou não quer definir.

É uma coisa acontecendo.

E as coisas podem ser tantas e são… Não dando intervalo nesse acontecimento todo pra gente entender o que se sucede pros lado de cá, muito menos o que se sucede pros lado de lá.

Ai.

Coração coisado… Dá medo. Natural. A gente não se sente livre o suficiente pra gritar a coisa por aí [que coisa?], mas também não aguenta mais esconder e fica aqui coisando entre dar pistas e guardar segredos.

Quanta coisa!

Se fosse simples, tinha nome e sobrenome e data de nascimento. Mas não tem. Para o desespero de quem precisa precisar tudo, coração coisado te deixa sem noção de medida, de certo ou errado, de fica ou vai embora.

As vontades que vêm, as assombrações que te empurram, os desejos que te jogam prum lado e pro outro de um quarto fechado procurando respostas pra depois você sair sem resposta alguma e achar que está bom estando assim.

Coração coisado pra te deixar sem chão procurando teto, pra te fazer usar antônimos bobos em construções óbvias. Te fazendo calar em quandos que você geralmente gritaria. Com todas as inseguranças próprias do que não se calcula, mas que a imaginação não deixa em paz.

Coração coisado pra ficar mais humano. Pra fazer a gente chorar e rir e se sentir viva de novo. Alguma coisa acontece e eu, que não entendo nada de nada, fico aqui esperando a coisa criar raíz e nome ou só tomar mais um pedaço de mim.

O drama do não-drama

Quantos cigarros para sossegar uma ânsia que não é minha? Dois maços pra esquecer um ‘e se…’ que não deveria me inquietar. Comprando tuas dúvidas e dívidas pra me aliviar da culpa de ser feliz. Tormento de, pela primeira vez, ter sido a escolhida e não saber lidar com quem fica pra trás, tão mais fácil era chorar e lamentar pelo que não foi. Não mais fácil, mas era o costume. A verdade é que é mais fácil ser heroína coitadinha que protagonista bem resolvida.

Conversas com Leticia

“Fiz um quadro chamado “Adeus”.
Todos os dias olho pra ele e me sinto quase aliviada.”

Foi o que ela disse. E esse foi seu próprio adeus mais sincero de todos. Como quem cansa da gestação de dores e saudades e frustrações e pedidos de desculpas que nunca foram ditos ou aceitos, ela pariu o adeus que desse conta de tanto ponto final pendente. Mais que parir, creio que ela tenha vomitado.

Creio que tenha usado a mesma violência que usa quando escreve. Uma violência que menos tem a ver com a violência que primeiro te vêm à mente quando se pensa em violência e mais com a verdade rasgada e crua e sem prólogo a que ela me acostumou. Ou talvez tenha sido delicado, só para violentar minha mania de certezas.

Queria poder olhar para o quadro e sentir se ele também daria conta de aliviar um adeus especifico, ou todos os adeus que ficaram pelo caminho. Os meus. O meu e o dela. Eu sabia que nunca olharia para o quadro, eu sabia que continuaria lidando com a vida do adeus. Talvez eu devesse seguir seu exemplo. Talvez eu devesse tentar escrever o meu próprio.

Não. Ao escrever eu me explicaria, eu inclinaria entre as dores mais bonitas de explorar em detrimento das menos poéticas, mas tão fortes quanto. Não seria um adeus, seria mais uma poesia, dessas que eu faço falando de saudades, mas que não me libertam da saudade, só me fazem senti-la com mais força.

Não sou tão boa em sintetizar o inexplicável, a sensação, o gesto, o sentimento, o que quer que signifique o que ela chamou de “Adeus”… Eu queria realmente poder olhar uma vez para o quadro. E tentar não descreve-lo mentalmente. Eu queria só senti-lo, sentir o quase alivio. Vomitar os nós que as despedidas largaram pelo caminho. Eu queria uma cura, uma chance, eu queria tirar o peso das minhas escolhas erradas.

Se eu conseguisse, chamaria de Arrependimento. Porque eu ainda preciso desse passo antes do ponto final.

Do drama, das músicas e do nada.

Coração despedaça de saudade. E de cabelo molhado a gente vai ao bar, curar o descompasso de um choro que não se fez cessar no banho.

Quantas foram as músicas que eu quis pra mim. Cantar de olhos fechados pra suspirar “é nossa”. Nunca foram. Nem minhas, nem deles… Não contaram minhas histórias naqueles refrãos mais bonitos. Minhas lembranças ainda são escravas das coisas que não deram certo.

Versos e versos em que eu quis me achar. Tão mais doses pra esquecer do que pra lembrar. Rimas idiotas e acidentais porque eu já me acostumei a rimar amor com dor.

Uma música que fala de amor e de tristeza e não necessariamente te lembra uma história específica, mas te joga na cara todas as vezes em que você falhou miseravelmente nisso de ser feliz fazendo alguém feliz também.
Um esboço feito por outras mãos dos rascunhos que foram esse amontoado de ‘ir embora para nunca mais’.

Um cigarro, por favor, pra digerir esse nó que nunca foi plural pra ser laço. Se algum dia foi fácil, eu devia estar ocupada demais complicando as coisas. Jeitão meu de piorar tudo o que já não funciona por si só.

Um eterno dramatizar para transformar cicatriz em fratura exposta. A inexplicável vontade de me impor essas torturas como se eu acreditasse que fazer diferente tem muito mais a ver com esse dedilhar o erro e mastigar despedidas do que em confiar no acaso.

Contradizendo minhas verdades pra tentar me distrair com mais uma mentira. Ou 1457 delas.

Esforço descomunal para conseguir uma ressaca que justifique um dia todo na cama. Esforço descomunal pra fingir que o novo vai ser um mais do mesmo e que talvez seja melhor ir embora agora antes que dê vontade de ficar.

Coletânea de enganos à venda pra quem quiser comprar todos os meus golpes. Memórias do que não deveria nem ter sido para que não precisasse ser esquecido aos murros. Eteceteras para confundir peculiaridades. Tentativa última de silenciar as dores.