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Último pedido

*Originalmente publicado no malvadezas.com

Cultivo o hábito, o singular hábito, de pedir aos amores, quando da despedida, que eles permaneçam pelo tempo de um último cigarro. Gosto de contemplar a tortura do ódio que se resigna diante de um pedido de não amor e que se permite ficar, pela poesia que imploro nesse instante de sensações ímpares. Quando não há ódio, há saudade. Saudade que nasce no momento em que dou o primeiro trago desse último estar junto. Bonito igual.

Às vezes é manhã, e gosto de ver a luz clara incomodando os olhos que ora fogem, ora persistem na minha figura. Às vezes é noite, e o cigarro é o tempo do táxi que pedi e que pago porque não quero meus amores a andar por aí em madrugadas tristes de término e renascimento.

Cada término é um renascimento. Um mais do mesmo, reinventado.

Alguns não entendem e saem batendo porta antes que eu satisfaça esse desejo íntimo. É preciso compreender. Então fumo contemplando a ausência. Um brinde seco e solitário ao que se desfaz. Sem comemorações mórbidas. É pura e simples a reflexão primeira de uma dor ou um alívio que passa a existir no instante do adeus.

Peço para que não falem. “Sente-se apenas”. Se fumam, ofereço, acendo, posiciono o cinzeiro e ficamos os dois nesse vazio que tem que ser vazio, porque não cabem palavras, nem gestos largos, nem ações precipitadas. Muito provavelmente foram elas que nos levaram até ali. E se muito nos permitirmos, terminaremos o cigarro aos gritos ou aos beijos. Ou os dois.

Porque o término é um fim, de tudo. Um basta dessas coisas todas que já não suportamos, mas também de muitas outras que não queríamos que acabasse. Mas por não sabermos lidar com umas, acabamos por abrir mão de todo o resto. O resto pode ser muito, o resto pode não parecer, assim, resto, mas continua não valendo à pena. E enquanto essas coisas vão passando pelo pensamento, as cinzas vão se acumulando…

Às vezes, em pé, num batente de porta. Como paramos ali? Por que começamos, afinal? Pelo pensamento, tudo. É como construir um índice desordenado do que virá pela frente, de como será transformar amor em saudade ou dor em vida. Um pautar a superação ou o desespero, enfim… O descobri necessário. Momento de se preparar para cobrir o que virá da ausência do outro. Reformular, redecorar, refazer, mudar.

Por vezes, desejo que esse último cigarro seja eterno, prolongo-o quase que até o filtro, me demoro em apagá-lo e fico brincando com a pontinha pelo cinzeiro até que se apague sozinha, não mato, deixo que morra, muito lentamente. Outras vezes bastaria três ou quatro tragos para entender tudo ou chegar a conclusão que não é preciso entender nada. Mas não faço diferença, e deixo que queime até a última chance.

Ao outro sobra a função de acompanhar meu ritmo. E fugir do meu olhar. É preciso que olhares não se encontrem muito nessas horas, embora eu me fixe em alguns porque é simplesmente inevitável. Amores e amores… Tão singulares, mas todos, igualmente e religiosamente, ao menos uma vez na vida, vão ter de mim o tempo de um cigarro. Reflexões de Marlboro.

2 Comments

  1. Marcelo Moro wrote:

    Digno

    Wednesday, February 22, 2012 at 22:55 | Permalink
  2. Tião Martins wrote:

    Uma frase e meia que sintetiza a sua “persona” e é linda: “…não mato, deixo que morra, muito lentamente.” Todo o texto é
    dramático, no melhor sentido. Parece escrito
    como roteiro de uma peça de teatro, com um timing quase perfeito. Você é uma lindeza, garota.

    Tuesday, February 28, 2012 at 21:09 | Permalink

One Trackback/Pingback

  1. Asneiras Aleatórias › Despoesias IX on Friday, March 30, 2012 at 03:10

    [...] saudade. Vida que segue. “Menos cigarros, mantenha os conhaques”. Ou algo assim. Guardarei. Sem reflexões de Marlboro por agora. This was written by cintia. Posted on Friday, March 30, 2012, at 03:10. Filed under [...]

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